Lapsos on line
Existem dois tipos de pessoas no mundo: as que usam guarda-chuva e as que não usam.
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Silêncio gostoso
Parece cócegas! Dessas que mexem com o corpo inteiro e que se desmancham em riso. Riso expressivo, que deixa os olhos pequenininhos, porque a boca sorri largo, como que querendo alcançar as orelhas. Às vezes parece um “plim”. “`Plim” que dá da cabeça até o dedão do pé. E tem ocasiões que é como andar nas nuvens, uma paz, uma leveza. Em certos momentos, arde. Queima a alma até suar o corpo ou o corpo queima até suar a alma? Diante de tantas sensações, por vezes simultâneas, eu me calo. Não encontro o vocabulário adequado. Mas não importa. Porque até no silêncio você está comigo. E me salva, de várias formas.
domingo, 4 de março de 2012
Tudo alinhado, demais.
Nenhuma almofada fora do lugar. A vermelha ao lado da amarela que está do lado da marrom, seguida de mais uma vermelha. Todas no centro do sofá de canto. No chão, o brilho chama a atenção. Sobre a mesa de jantar, apenas o vaso com as flores. Não há cadernos, chaves, revistas ou mesmo cartas, que antes eram deixados pela mesa, fazendo-a parecer muito mais um móvel de escritório do que uma mobília de sala de jantar. Ao lado da porta de entrada, perto do tapete, nenhum sapato. Ainda se tira o calçado para entrar em casa, mas ninguém mais o deixa fora da sapateira. Casa limpa e arrumada, sinônimo de ausência e silêncio. Foi até a sapateira, pegou uns calçados e os deixou no pé da porta. Depois, espalhou papéis dos mais diversos sobre a mesa. Também jogou uma almofada no chão e desalinhou as demais, que ficaram perdidas uma das outras no sofá. Disfarçava a saudade, simulando a bagunça de outrora.
domingo, 26 de fevereiro de 2012
Remorso
Acorda às 6:30. Toma banho, veste a roupa, senta para o café. Das 08:00 às 12:00, trabalho. No horário de almoço, visita aos clientes, banco, uma olhada nas lojas. Volta ao trabalho, das 13:30 às 18:00. Em casa às 18:30, toma banho, veste a roupa, come. Vai para o computador. Checa e-mail, manda e-mail, lê as notícias, enquanto conversa no Facebook. Ainda tem que terminar de escrever o projeto, concluir o planejamento, verificar as propostas e confirmá-las. Termina as atividades perto das 21:00. Assiste um pouco de TV, vê o namorado. Às 23:00 está na cama, desacelerando, retomando o dia e planejando o que vem. Não conversou com os pais, não telefonou para os avós. Também não respondeu a mensagem do amigo, assim como não brincou com o cachorro. E ainda faltou pagar uma conta, colocar a ideia nova no papel, ir ao advogado e começar a tal da atividade física que ainda nem escolheu qual será. Se o dia tivesse mais que 24 horas, o remorso seria menor?
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
27 janeiros
Mandela ficou 27 anos preso. É muito tempo! Uma vida, a minha vida. E falando assim, em 27 anos de idade, nem parecem muito. Vinte sete anos. Vin-te se-te, ainda mais próxima dos 30. Existem listas do que se fazer antes dos 30 anos e eu ainda não fiz a minha, embora tenha em mente alguns itens. O medo de parte deles ficar só na vontade é grande, por isso o temor a cada aniversário. Daí, um friozinho na barriga, como esses que dão de andar de montanha-russa, acompanha-me durante o dia do meu nascimento. O friozinho é abafado com a sensação gostosa de mais um ano de vida. É a estreia da nova idade a ser pronunciada. E toda estreia é especial. Quantos anos você tem? Vinte sete anos! Soa tão natural, mesmo que alguns se assustem. Feliz ano novo, para mim.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
2011/2012
Amigo secreto, presentes para a mãe, irmão, sobrinho. Panetone no café da manhã, árvore de Natal na sala. A saudade quase cessada com a gente que vem chegando de carro, ônibus, avião. Uma alegria tímida, querendo explodir na virada do ano. Uma retrospectiva mental . Uns projetos concluídos, outros em desenvolvimento e alguns nem no ínicio. Listinha de realizações para o novo ano. E você aqui, mesmo sem saber seu paradeiro. Suspeito do céu. E, sem querer, lembro da partida. Ainda dói 2011 em mim, por você. E dá frio na barriga, por 2012.
terça-feira, 29 de novembro de 2011
Prece
Pouco, mas o suficiente para querer que permaneça por um período longo. Quiçá interminável. De olhar para frente e desejar a sua mão na minha. De acordar já pensando em você e repetir o pensamento à noite. Rir a dois é melhor, de doer a barriga e pedir figa. Fico boba. E até duvido que você exista. Belisco. É de verdade, respirando numa frequência irresistível. Além do encaixe em mim. Que os trinta dias sejam apenas uma prévia do bem que você me faz.
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Mentirinha
Quando a moça bonita se aproximou, não imaginava que a convidaria para um almoço no restaurante do outro lado da rua. Surpreendeu-se com a atitude. Há anos estendia a mão naquela esquina e nunca havia recebido tal convite. Talvez as rugas a tivessem ajudado. A piedade é maior para velhinhas que mendigam, concluiu. Enquanto atravessavam a rua, a moça bonita se explicava. Disse que ela lembrava a avó, que morreu há pouco tempo. É o mesmo tom de pele, o mesmo cabelinho cinza escondido num coque!, contava a moça bonita toda empolgada. A velha mendiga apenas sorria, sem jeito, sem responder nada. Refletida na janela do restaurante, hesitou em entrar. O reflexo lhe mostrava tantas coisas, inclusive que não era apta para o ambiente onde a levavam. A saia bege que descia até a canela tinha uns furinhos que, por mais que fossem remendados, insistiam em aparecer. Bege quase branca que contrastava com a blusa de lã pink, que lhe foi doada recentemente. Mas o que mais a incomodou mesmo não foi a roupa, mas a falta de um sapato fechado. O chinelo de dedo não escondia suas unhas sujas, de quem passa horas e horas caminhando pelas ruas. Num vai e vem curto, mas sem fim. Como ontem tinha chovido, debaixo das unhas ficou terra. Até esfregou quando chegou em casa, mas por não ter a força de outrora, não conseguiu tirar toda a sujeira. E o tempo não foi bondoso com ela, as rugas na sua face indicavam muito mais idade do que realmente tinha. Tímida, deu um passo para trás. Mas a moça bonita, num gesto natural, sugerindo apoio e compreensão, pegou-a pelo braço. Entraram juntas no restaurante. Durante o almoço, a moça bonita a entupiu de perguntas, além de comida, claro. A velha mendiga contou que morava distante, quase fora da cidade. Cuidava dos netos, cinco. Porque a filha tinha morrido. Depois que viuvou e sem forças para continuar na fábrica onde trabalhou por anos e anos, foi para as ruas. Fixou-se na esquina e a apontou da janela do restaurante. Seu trabalho não lhe trazia muito orgulho. Estender a mão à espera de esmola nunca esteve em seus planos. Mas aceitou o destino, visto que não tinha muitas alternativas. A moça bonita se disse sentida. Contudo, achou muito digna a velha mendiga que cuidava de metade de uma dezena de netos. Não devia ser fácil, pensava. Entristeceu-se. A velha mendiga, ao se despedir, rezou para moça bonita nunca descobrir a verdade. Pois a vida que tivera era muito mais triste do que contara. Preferia mentir sua história a pronunciá-la ou mesmo escutá-la. Posicionou-se na esquina, estendeu a mão. Ali, embora com certa vergonha, sentia-se melhor.
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